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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Jornada sem Fim - Veraneio em Tramandaí

Baseado nas memórias de meu sogro, Antonio, e em algumas imagens por ele cedidas e outras do jornal NH, de fotosantigas.pratti e da internet, elaborei uma cronica sobre os veraneios em Tramandaí a partir da década de 30 do século passado.
Capítulo I - A Partida
O ruído do motor sobressaltou-me. Nem havia a necessidade da surpresa, pois mal consegui pregar o olho a noite toda.
Meu coração infantil aguardava ansiosamente ouvir o familiar som do Oldsmobile 1929 verde escuro, placas RGS 227 do Dr. Júlio, prático dentista, meu pai, estacionando em frente a nossa casa, na Rua São Pedro.
Já bem desperto, acompanhei em pensamento, sua caminhada até a Avenida Eduardo, quase em frente à Casa Masson, para buscar o nosso automóvel na garagem do Seu Domingos.
Estamos no verão, janeiro de 1931, e os próximos noventa dias serão de muitas emoções.
Meu irmão caçula e minha irmã dormem tranquilos, com ansiedade antevejo a grande aventura que está para iniciar.
São quase três horas da manhã, a escuridão ainda projeta seu manto sobre a cidade, e os silêncios da madrugada somente são cortados pelos entregadores de leite que iniciam a sua atividade diária.
Finalmente aconteceu. Somos acordados, um a um e começa a função. Todas as providências já foram tomadas para nossa viagem. As duas grandes pranchas de madeira já foram aparafusadas nos para-lamas do automóvel, onde serão acomodados, além dos dois galões de gasolina com 40 litros cada, toda sorte de ferramentas e utensílios necessários para a empreitada, que incluem pás, picaretas, correntes para os pneus traseiros, fogareiro de pressão e muito mais.
Dna. Paulina, minha mãe já havia preparado na véspera nossa refeição para a longa viagem. No dia anterior, o Manuel da padaria que ficava na esquina da nossa rua com a Minas Gerais, atual Av. Farrapos, entregou seis pães franceses de meio quilo, três galinhas caipiras foram compradas no Lunardi Secos e molhados e assadas. Ovos e farofa também foram feitos no fogão a lenha, e fariam parte do nosso almoço. Lembrei que em outro dia, perguntei ao meu pai porque a mãe do João, meu amigo, não usava lenha para cozinhar, e então fiquei sabendo que muitos bairros da nossa cidade possuem gás encanado (Cidade Baixa, Centro, Independência, Moinhos de Vento).
Ali na porta da cozinha, amontoavam-se as malas de papelão encerado com nossas roupas cuidadosamente acomodadas.
Minha mãe servia o café da manhã quando chegou meu tio Carlos, como sempre contando as novidades sobre os últimos lançamentos dos cinemas. Ele é fiscal das Companhias Cinematográficas americanas, e fala entusiasmado sobre o documentário “A avançada das tropas gaúchas”, dirigido por Eduardo Abelim e produzido pela empresa Gaúcha Film. Todos acomodados, meu pai e minha mãe no grande banco da frente, e atrás nós, seus quatro filhos, além do tio. Colocamo-nos em marcha, seguindo pela Rua São Pedro, deixando para trás a Rua Pernambuco, passando agora pela Avenida Bahia. Na esquina da Benjamin Constant dobramos à direita, subindo a Bordini e alcançando a Vinte e Quatro de Outubro. Junto a Hidráulica já avisto a enorme torre de madeira da Rádio Gaúcha, cópia assumida da torre de Paris, segundo meu pai, prefixo PRA-Q, “A Voz dos Pampas”.
Meu tio intervém para dizer que conhece o Sr. Carlos Ribeiro de Freitas, inclusive já tendo visitado o estúdio no sexto andar do Grande Hotel, na Rua dos Andradas, em frente a Praça da Alfândega, de onde são transmitidos os programas. Meu pai relembra a inauguração da Rádio Sociedade Rio-grandense, em 1924, e a surpresa causada pelas galenas, ligadas a baterias, algumas com cornetas para amplificar o som. Ainda hoje arrepende-se de ter sido um dos 300 associados que mensalmente desembolsara 5 mil réis para manter a rádio, que não durou dois anos, pois a maior parte dos sócios não cumprira suas obrigações.
Estamos na Rua Independência, onde os volumes dos grandes casarios se projetam sobre as sombras da cidade. Acenamos felizes para o soldado do quartel do 7º Batalhão na esquina da Avenida João Pessoa com a Rua Duque de Caxias. Estamos agora na Rua Bento Gonçalves, onde nos divertimos contando os pares de olhos de boi refletidos pelos faróis do carro. Subitamente, na altura do Hospital São Pedro, inicia a trilha de terra batida. Deixamos para trás a suave pavimentação de pedra irregular da nossa cidade, e avisto alguns pontos de luz no horizonte, indicando o início de mais um dia. Amanhece quando chegamos a cidade de Viamão, contornamos a Igreja Matriz do município, e passamos pelo Paradouro Arabataxi, onde são servidos cafés coloniais, e vendidos produtos artesanais como rapaduras, pães, cachaça, e outros. Não perdemos tempo pedindo ao  pai para darmos uma parada, pois sabemos que ele estabeleceu o roteiro e não pretende modificá-lo por nenhum motivo.
Estava distraído admirando a paisagem rural que nos envolvia, ao longe uma tortuosa fumaça indicando um rancho, gado pastando, plantações, quando levei um susto ao sentir que o carro parara. Avistei pela janela meu pai, que havia descido e encontrava-se conversando com um estancieiro de bombachas junto à porteira. Pouco depois, retorna com cara de poucos amigos.
- Mil réis para atravessar uma porteira! Esta cena se repetiria muitas vezes durante a viagem.
A proximidade com o rio Capivari indica que, finalmente, faremos uma parada. A familiar figueira espreitava, com seu grande guarda-chuva de folhas, a aproximação de nossa caravana. Descemos todos do automóvel, o sol já alto no céu indicava o meio-dia, nossa mãe providenciando o almoço, nosso pai nos solicitando cuidado. Uma grande toalha de algodão xadrez era estendida sobre a relva macia, dispostos nela os alimentos. Meu pai busca no carro o fogareiro de pressão, coloca querosene, com a mão empurra a bomba, regula a pressão do combustível e acende o espalha-chamas. Minha mãe coloca a água recolhida junto ao rio no fogo e, quando aquecida, prepara o chimarrão.
Após o almoço, descansamos sobre a sombra da figueira, enquanto meu pai e meu tio enrolam um palheiro e discutem a tal política. Trechos das conversas dissimuladas dos dois chegam aos nossos ouvidos trazidos pelo vento nordestão: Política café com leite, quebra da bolsa de valores em 1929, Júlio Prestes, governo provisório, fraude na República velha, operariado brasileiro vai receber série de benefícios sociais.
Por volta das treze horas retomamos a viagem. Meu pai, na direção, solicita ao tio Carlos que, com uma taquara, encontre o local mais apropriado para atravessarmos o Rio Capivari. Deliciado, observo a água barrenta do rio escorrer entre os para-lamas do nosso automóvel.
São três horas da tarde quando atravessamos o túnel verde. Neste ponto, iniciam as dunas de areia. Os proprietários das fazendas já haviam providenciado para o veraneio as esteiras de madeira cuidadosamente amarradas com corda, afastadas entre si por aproximadamente quinze centímetros. Novamente meu pai retirava da carteira notas de quinhentos ou mil réis para obter dos estancieiros a permissão para atravessar suas terras.
Adiante, encontramos um trecho onde as esteiras não haviam sido recuperadas. Meu pai, com a ajuda do macaco mecânico, coloca as correntes de ferro nos pneus traseiros que diligentemente trouxe. As correntes somente serão retiradas em Cidreira, onde estaremos chegando às dezesseis horas. No trajeto encontramos duas juntas de boi ao longo da trilha, que aguardam pacientemente motoristas não previdentes que eventualmente venham a atolar na areia fofa, e desta forma arrecadar alguns trocados. Não encontramos nenhum outro veículo até o momento. Ao chegarmos a Cidreira, meu pai novamente para o carro, e repete o ritual de, com o macaco, retirar as correntes dos pneus traseiros. Não são mais necessárias, pois a areia úmida da praia nos levará ao nosso destino. À nossa volta, bandos de inumeráveis maçaricos e gaivotas revoam à nossa aproximação, e as ondas espumantes do mar límpido trazem muitos mariscos, conchas e peixes. Passamos pelo farol, estrutura de aço que se destaca na paisagem de dunas e areia sem fim.
Em meia hora estamos em Tramandaí, povoado de pescadores com muitos ranchos de palha, uma centena de casas de madeira. Dobramos à esquerda na rua da Matriz, e na esquina da Rua Emancipação paramos em frente à Igreja Matriz, construída em alvenaria, onde minha mãe agradece a sua santa de devoção por termos chegado bem, e nos encaminhamos ao hotel Correa, na verdejante rua Emancipação.
Meu pai, ciente da proibição de circulação de automóveis nos tapetes verdes que nos cercam, apressa-se em chegar à parte traseira do hotel. Além do Correa, nesta época Tramandaí conta com uma rede hoteleira composta dos Hotéis Sperb, Gaúcho, Strassburger, e muitas pousadas.
Já nos aguarda o Senhor Correa com as chaves do chalé número cinco, que a cada vinda nossa, nos é reservado. Descarregamos as malas e, enquanto meu pai conduz o automóvel ao telheiro localizado nos fundos do terreno onde, depois de devidamente estacionado, permanecerá  noventa dias de nossa estada na praia. Caminhamos pela grama recém aparada, rumo à nossa residência praiana. Ao nos aproximarmos, observei que as telhas haviam sido substituídas, e o penetrante odor de tinta nova sobre a madeira evidenciava que estava tudo preparado para nós. Os dois quartos e a sala seriam suficientes para nos abrigar. Informei a minha mãe que estava necessitado, e fomos os dois até o conjunto de casinhas em madeira numeradas conforme os chalés. Entrei e como sempre acontecia, assustei-me com o enorme buraco no meio da tábua de madeira, que parece sempre querer me engolir para as entranhas da terra. Superado o medo, consigo realizar meu intento. À noite, o providencial urinol em baixo da cama substitui a ida ao banheiro.
Voltando pelo caminho de pedras encontramos nossa família dirigindo-se para o grande salão onde, pontualmente às dezenove horas, seria servido o jantar, já com os lampiões a querosene espalhando suas luzes amareladas pelo ambiente. Encontramos os velhos conhecidos de todos os anos, meus pais os abraçam efusivamente, e nos sentamos para a refeição da noite. Apesar de nosso cansaço, devoramos todos os pratos oferecidos. Após o jantar, como sempre acontecia, eram recolhidas as mesas e cadeiras e, com a chegada do pianista e da violinista iniciavam-se as danças, que incluíam partituras clássicas, sambas, valsas, tangos, jazz e chorinho. Como a fadiga era enorme, nos retiramos para o chalé. Apesar de todas as aventuras do dia, minha ansiedade por rever o mar era enorme. Perguntei novamente ao meu pai porque não podíamos ir pela manhã até a praia, e recebi a mesma explicação de todos os anos:
-Porque o transporte funciona somente à tarde, Antonio, e também porque o horário de banho sempre foi entre as três e as cinco horas. Senti sede, e meu pai acionou a bomba manual, que entre rangidos e engasgos, encheu meu copo de água vinda direto das profundezas da terra, conforme sempre dizia meu tio Carlos.
O bater do sino indica que são dez horas da noite, e os lampiões a querosene serão desligados para dormirmos. Felizmente, pelo adiantado da hora, escapei do banho frio na tina de folha. Em pouco tempo somente a colcha de estrelas e a grande lua cheia que constituem nosso firmamento serão os únicos pontos luminosos em toda Tramandaí. O ruido do mar tão próximo embala meus sonhos de criança.
 
 Capítulo II - O Veraneio
Acordamos com o primeiro cantar do galo na madrugada, e às sete horas o sino bate informando que o café está servido. Chegamos ao grande salão, e nem parece que há poucas horas havia ocorrido mais um baile noturno. Os hóspedes encontram-se impecavelmente vestidos, os homens com seus trajes sociais ou, eventualmente, de bombachas. As mulheres em compridos vestidos, cobertos de babados.
Terminado o desjejum todos acomodam-se na aconchegante varanda do hotel onde, confortavelmente instalados nas espreguiçadeiras ou cadeiras fornecidas pelo senhor Correa, permanecerão até a hora do almoço. Alguns homens instalam-se em uma mesa e começam um animado jogo de cartas, só interrompido pela aproximação de algum transeunte, quando o ritual de acenar com o chapéu se transforma em uma divertida coreografia, enquanto as mulheres bordam, fazem crochê e conversam. As crianças brincam de roda, jogam futebol ou peteca, e outros folguedos infantis. Assim passamos o tempo até que a sineta nos conduza, pontualmente às doze horas, novamente ao salão de refeições. Após o almoço retornamos para o chalé, pois aproxima-se a hora da sesta. Com dificuldade adormeço, pois a ansiedade para rever o mar agita meus pensamentos. No horário combinado, nos vestimos, minha mãe retira nossos maiôs da mala e nos dirigimos para a parada do trem, na Rua Emancipação. Quando chegamos, o caminhão já se encontra engatado nos quatro vagões abertos. O odor de gasolina está forte, sentamo-nos nos bancos de madeira. Na hora prevista, após soar o apito, a composição começa a movimentar-se nos trilhos de ferro. Com a aproximação do mar, o odor do combustível é substituído pelo salgado perfume marinho. Os trilhos terminam junto a praia, e saímos todos. Impecavelmente vestidos, os homens com calça, camisa social e blazer, e as mulheres em longos vestidos.
Dirigimo-nos para as cabines disponibilizadas pelos hotéis, fabricadas com sapé, sem teto, tal qual uma casinha de João de barro, sem piso, onde trocamos as nossas roupas de passeio por maiôs de corpo inteiro, fabricados em lã natural e tingidos de preto, touca de borracha para não molharmos os ouvidos e galochas também de borracha para nos proteger das mordidas dos siris, em grande quantidade nas águas do mar. Como complemento, as mulheres usavam uma sainha na cintura.
 De agora em diante seriam somente folguedos, brincadeiras de pegar, castelos de areia. Próximo às cinco horas da tarde, depois de nos secarmos e trocarmos novamente de roupa, nos dirigíamos para o trenzinho do seu Saad Abraão, com seus quatro vagões descobertos. Apresentados os tickets fornecidos pelo hotel, sento-me no banco duro de madeira recém pintado e enquanto aguardo, agradeço a Deus pela existência do seu Saad, pois além de nos transportar até a praia, é um dos responsáveis pelo fornecimento de víveres e outros materiais para os hotéis. Ao contrário da vinda, agora o caminhãozinho está posicionado atrás dos vagões, empurrando-nos de volta ao hotel. Quando chegarmos a Rua Emancipação, em frente ao Hotel Gaúcho, ponto final da linha, depois de todos os passageiros saírem vou pedir, novamente, para sentar-me no caminhão enquanto ele é girado manualmente na plataforma de madeira para se posicionar novamente na frente da composição de vagões.
Após nossa chegada ao Hotel, seguíamos até a beira do Rio para acompanharmos a chegada das lavadeiras e engomadeiras em suas precárias canoas para recolher as roupas usadas dos veranistas e dos hotéis, e em grandes trouxas colocadas nas suas cabeças seguiam até a beira do rio entoando cânticos afros e, em um curioso bailado, equilibravam as roupas para lavá-las em águas cuidadosamente escolhidas, que não talhavam o sabão e deixavam a roupa extremamente limpa.
Na manhã seguinte, acompanharemos a cozinheira do hotel e seus filhos até a margem do rio para comprar gêneros alimentícios trazidos pelos vapores. Segundo meu pai, a navegação lacustre e marítima seriam o futuro dos transportes de massa, e que havia sido iniciada pela dragagem das barras que separavam as lagoas, o que permitiu a navegação a vapor desde Torres até Osório e Tramandaí. Com a conclusão da ligação férrea entre Osório e Palmares do Sul em 1922, continuava ele afirmando, os excedentes agrícolas da região eram conduzidos por barco até Osório, e de lá de trem até o porto de Palmares do Sul, onde eram novamente embarcadas, sendo levadas até Porto Alegre.
Nos dias de céu azul, sem nuvens, caminhávamos até o limite da cidade para acompanharmos a descida dos “teco-tecos” no campo de pouso gramado construído próximo da entrada de Tramandaí, e que terminava quase junto ao mar.
Meu pai gostava muito de pescar, e este era o único momento em que retirava o carro da garagem do hotel e íamos em direção à confluência da Av. Beira Rio para nos dirigirmos ao balneário de Santa Teresinha, passando pela ponte de madeira construída em 1930 por ordem do Governo do estado, para substituir a precária travessia de balsas e canoas, que utilizava pranchas sobre duas canoas, colocando-se o automóvel amarrado sobre estas pranchas. Ao chegar, entregava o resultado da pescaria para a cozinheira do hotel, que os preparava especialmente para nossa família.
Quando não queria utilizar o automóvel, um dos passeios obrigatórios eram as visitas aos ranchos dos pescadores na margem esquerda do Rio Tramandaí, onde meu pai fazia questão de escolher e comprar peixe fresco para a cozinheira do hotel preparar e servir na janta em nossa mesa.
Em algumas noites, gostávamos de visitar o Hotel Sperb, o único com gerador próprio e luz elétrica, mesmo que precária, ou até o Hotel Hofmeister ou ao Riograndense na beira do rio.
Em algumas manhãs, com autorização de meu pai e acompanhados por algum adulto, íamos à beira do rio tomar um banho na prainha, depois de despencar barranco abaixo. Na água limpa, que alcançava nossos joelhos, enxergávamos nossos pés e os peixinhos nadando na margem do rio.
Outro passeio obrigatório incluía a exploração dos cômoros de areia junto ao mar, subindo e descendo as dunas de areia quente e branca, com esteiras colocadas nos pontos mais altos. Após as chuvas, entre as dunas formavam-se lagoas de água quentinha e limpa, onde brincávamos.
Um dos nossos maiores divertimentos era espreitarmo-nos até o grande salão do hotel e tentar escutar as conversas dos adultos. Em uma dessas vezes, acompanhei a discussão acalorada entre um grupo de veranistas que queriam preservar a praia contra outro grupo que acreditava que o melhor era não impedir o progresso. O argumento dos favoráveis à conservação era de que a publicidade que se fazia no jornal “Correio do Povo” e na revista “A gaivota”, ambos da capital, das propriedades terapêuticas do ar marinho e das areias brancas do litoral, o efeito medicinal dos banhos de mar, inclusive recomendado por médicos, estava fazendo com que famílias abastadas, assim como os imigrantes alemães e seus descendentes estivessem invadindo as praias do litoral. Desta forma, as praias balneárias do litoral gaúcho começavam a apresentar problemas de saúde e de higiene.
Os progressistas, por sua vez, diziam que o aumento de veranistas faria com que melhorassem as condições de transporte e acesso às praias, assim como o comércio e infraestrutura, no que eram apoiados pelos hoteleiros e comerciantes locais.
Em uma tarde, alguns hóspedes do hotel trouxeram um veranista que havia se exposto demais ao sol e urrava de dor em função das queimaduras. O senhor Correa fez um ungüento com claras de ovos e passou nos ferimentos. Depois de três dias de sofrimento, o queimado conseguiu sair do seu quarto. Para prevenir estes acidentes, nossa mãe untava nossos corpos com vinagre, o que além de proteger, ainda permitia um bronzeado. Quando ocorriam as queimaduras, nosso pai sempre tinha óxido de zinco, que misturado ao vinagre, tornava-se uma loção. Vinagre também era utilizado para queimaduras com mãe d’água.
E assim, cheios de aventuras e novidades transcorreram os noventa dias do meu primeiro veraneio na Praia de Tramandaí, litoral norte do Rio Grande do Sul. Sucederam-se muitos depois deste inicial, com peripécias e inovações, mas o primeiro a gente não esquece.


7 comentários:

Artes e escritas disse...

Este é um texto histórico, embora escrito em tom familiar. Quantos retratos o seu texto nos traz, aproximando-nos de uma época de muita turbulência, onde as famílias faziam de tudo para que os problemas externos: política, crise econômica, etc. não fossem a tônica da vida em família. Gostei muito de te ler. Um abraço, Yayá.

Adlei Pereira disse...

Caro Paulo, achei fantástica sua demonstração com detalhes da época de 1929, me senti no lugar das pessoas
pois minha família é de lá daqueles lados.
Parabéns, vou emocionante viver isto agora. Abraços

✿ chica disse...

Especial essa crônica e lembro dos meus avós falando nessas maratonas... Legal, bem ilustrada! abraço,chica

dilamar santos disse...

Muito bom! Isto dava um curta!

Red PomPom disse...

Concordo com o comentario da Yayà
e Dilamar Santos.

Uma curiosidade as fotos sao tambèm
do acervo do seu sogro ?

Luma Rosa disse...

Um belo compêndio! Dê os parabéns para o seu sogro pela bela narrativa e pesquisa histórica.

Santinha disse...

Oi Paulo, um texto histórico a partir das lembranças do seu sogro é uma obra prima. Enquanto lia a sua cronica lembrei de como era difícil para o papai percorrer os +ou- 70 quilômetros (distancia entre SP e Santos) para a gente ver um pouco a praia... Era uma aventura digna de filme tamanha a dificuldade.Tenho saudades.
ab
yvone

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